Comecei a ler Lolita.
Sim, Lolita. Já tinha pouco com que me coçar com o Mein Kampf, escolhi Lolita, para fritar de vez.
Li Lolita há muitos anos, mas não tinha a maturidade para compreender.
Hoje sim, sei que tenho as ferramentas para dissecar o livro, o Romance.
E as primeiras páginas….
Que tenho eu a dizer?
Como é possível Humbert ser tão chocante e sedutor?!?
Ele pega na afirmação: “Eu fiz uma coisa horrível” para “ Vou explicar-te tão bem porque fiz isto que talvez penses que não é assim tão horrível”.
Humbert está a apresentar um argumento moral, não apenas a contar a sua história.
O raciocínio;
Eu vivi um amor intenso e interrompido na adolescência.
Esse amor marcou-me e deixou em mim uma espécie de desejo permanente.
Existem outros homens que fizeram coisas semelhantes ou piores.
A sociedade tolera ou relativiza determinados comportamentos masculinos.
Porque razão haveria de me condenar a mim?
Portanto, desloca intencionalmente o centro da questão de; O que está a fazer a uma criança?” para “Porque razão ele se tornou assim?
Manipulação narrativa.
E essa impressão das primeiras páginas é deliberadamente provocada pelo Nabokov. Ele está a construir uma narrativa para convencer o leitor de que aquilo que fez pode ser compreendido como uma grande história de amor.
Existe o trauma fundador e depois tenta estabelecer uma equivalência entre aquilo que sentiu por Annabel e aquilo que sente depois por Lolita.
