Capítulo IV – Munique

Hitler começa a construir a própria identidade através das cidades.

Viena aparece associada a tudo aquilo que rejeita: decadência, desordem, mistura, conflito. Munique, pelo contrário, representa pertença, cultura alemã e uma ideia de comunidade nacional onde sente que finalmente encaixa.

Ao longo deste extenso e, francamente, aborrecido capítulo, o camarada, e nesta altura já sinto que somos colegas de carteira, continua a apresentar-se como alguém que observa, analisa e percebe aquilo que os políticos e intelectuais do seu tempo não conseguem perceber.

Há uma ideia que atravessa o texto quase permanentemente:

Eu compreendi aquilo que os outros não compreenderam.”

E ele faz questão de que o leitor perceba isso. Repetidamente.

A discussão sobre a Tríplice Aliança, a Rússia, a Inglaterra, a Áustria, a expansão económica e mais umas quantas voltas geopolíticas ajuda a perceber como ele via o mundo, mas é provavelmente uma das partes mais pesadas do capítulo.

A escrita é repetitiva, circular e cansativa. Hitler apresenta uma ideia, desenvolve-a, reformula-a, acrescenta um exemplo, regressa ao ponto inicial, dá mais uma volta e termina com uma conclusão ainda maior.

Às vezes tenho a sensação de já ter lido a mesma ideia três páginas antes. E provavelmente li.

Mas, no meio desta maratona de argumentos, começa a acontecer uma coisa importante.

Hitler já não está apenas a apontar aquilo que considera estar errado na sociedade. Começa a tentar perceber como essa sociedade deveria ser organizada.

A pergunta passa a ser:

Como se constrói uma comunidade nacional forte?

E é aqui que o seu pensamento começa a revelar-se de forma mais clara, e também mais perigosa.

A resposta que encontra assenta numa visão racial e hierárquica da sociedade. Quando afirma que o Estado é um organismo racial e não uma organização económica, coloca a raça no centro da existência do Estado e o indivíduo passa a existir subordinado à comunidade.

Ou seja: o indivíduo pertence a essa comunidade e, se necessário, deve estar disposto a sacrificar-se por ela.

Daí a ideia de que os homens não morrem por negócios, mas por ideais.

Para Hitler, os interesses económicos, por si só, não são suficientes para mobilizar uma população. Um ideal colectivo, pelo contrário, pode fazer com que alguém aceite lutar, obedecer e até morrer.

E aqui, por muito desconfortável que seja admiti-lo, há uma observação interessante sobre o comportamento humano.

As pessoas não são movidas apenas por dinheiro ou por interesses materiais.

São movidas por identidade.
Por pertença.
Por medo.
Por esperança.
Por ressentimento.
Por ideais.

E é isso que Hitler parece estar a tentar perceber: o que transforma um conjunto de indivíduos numa massa capaz de agir colectivamente.

O problema começa no passo seguinte.

Perceber um mecanismo humano não significa que a conclusão política retirada desse mecanismo esteja correcta.

É uma distinção que tento manter presente durante a leitura: uma observação pode fazer sentido sem que a ideologia construída em cima dela faça.

E talvez seja aqui que este capítulo se torne verdadeiramente importante.

Hitler começa a deixar de ser apenas o homem que observa, critica e enumera tudo aquilo que considera errado.

Começa a transformar-se no homem que pretende decidir como a sociedade deve ser organizada.

De observador passa, pouco a pouco, a arquitecto de uma determinada ordem social.

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