“O paraíso não é um jardim, mas uma trincheira.”

Darwin não assinou isto.

Hitler olha para a natureza e vê uma guerra.

Conveniente.

Porque quando já se decidiu quem deve vencer, basta procurar uma teoria que pareça confirmar o resultado.

Em Mein Kampf, a miscigenação é decadência, a pureza é força e a sobrevivência pertence aos triunfantes.

O paraíso deixa de ser um jardim. É uma trincheira.

Só que há um problema irritante.

A evolução não tem pódio.

Não existe uma raça no primeiro lugar, outra no segundo e os derrotados a caminho da extinção. Existe adaptação.

E adaptação a quê?

Ao ambiente.

À circunstância.

Ao acaso.

Ao momento.

A característica que hoje ajuda a sobreviver pode amanhã servir para absolutamente nada.

Muito pouco épico.

Pior ainda para a fantasia da pureza: a evolução precisa de variação.

A vida mistura, muda, cruza, falha, adapta-se e continua. Não preserva uma essência perfeita dentro de uma redoma. E Darwin também encontrou cooperação onde Hitler preferia ver apenas luta.

Animais sociais protegem-se, colaboram, vivem em grupo. Parece que a natureza não recebeu o memorando.

Mas o truque mais interessante nem sequer está em Darwin. Está no salto.

Há competição na natureza.

Logo, alguns homens devem dominar outros.

Há seleção natural.

Logo, existem povos com direito natural a conquistar.

Há desigualdade biológica.

Logo, desigualdade política.

Esperem!

Em que momento é que um “é” se transformou num “deve ser”?

A natureza também produz doenças, parasitas, abandono e canibalismo. Não consta que alguém queira fundar uma civilização inteira sobre o comportamento da louva-a-deus.

Hitler não encontrou uma lei da natureza, encontrou um álibi.

Primeiro veio a hierarquia.

Depois procurou-se uma biologia que não fizesse demasiadas perguntas.

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  1. Francisco Coelho Moreira

    Histórico.

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